Magda Soares: “Pensar que se resolve a alfabetização com o método fônico é uma ignorância”

A professora emérita da UFMG, Magda Soares, rebate as críticas feitas pelo secretário de Alfabetização, Carlos Nadalim

Alfabetização/Reprodução
Foto: Reprodução

Um dia após completar 100 dias de governo, Jair Bolsonaro assinou o decreto da Nova Política Nacional de Alfabetização. A proposta já tinha sido anunciada entre as metas prioritárias da gestão.

Segundo apuração da Folha de S. Paulo, o texto do decreto mantém o foco no método fônico – que prevê a alfabetização através da associação entre um símbolo (a letra, ou grafema) e seu som (o fonema).

A diretriz vem causando polêmica entre educadores, que consideram o método ultrapassado e ineficaz para a aprendizagem das crianças. A defesa é que o método fônico faça parte do processo de alfabetização, mas não seja o único método. Entre os especialistas é defendida a dimensão do letramento, que prevê – além da associação de grafemas e fonemas – o uso social da leitura e escrita.

Um dos grandes entusiastas do método fônico é o novo secretário de alfabetização do Ministério da Educação (MEC), Carlos Nadalim. Em suas redes sociais, ele condena o letramento como o vilão da alfabetização. “Uma reinvenção construtivista da alfabetização, fruto de uma preocupação exagerada com a construção de uma sociedade igualitária, democrática e pluralista em formar leitores críticos, engajados e conscientes”, classifica.

O secretário também critica a atuação da professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Magda Soares. Pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), Magda tem mais de 60 anos dedicados à área da alfabetização – entre pesquisas, formação de professores e atuação direta em redes de ensino.

Seu acúmulo deu origem a várias publicações e livros, três dos quais publicados pela Editora Contexto: Alfabetização e Letramento (2017); Alfabetização, a questão dos métodos (2016) e Linguagem e Escola, uma perspectiva social (2017).

Em entrevista, Magda Soares rebate as críticas feitas pelo novo secretário, fala sobre os desafios do País frente à agenda da alfabetização e afirma que defender o método fônico como alternativa para a agenda é uma atitude “simplista e ignorante”.

“Ocorre nesse País inteiro a predominância de escolas públicas com infraestrutura muito insatisfatória, professores mal formados, salários miseráveis. Pensar que se resolve a alfabetização com o método fônico é um simplismo, uma ingenuidade, uma ignorância, que me deixa indignada”.

Confira a entrevista:

O que é alfabetizar?

É ensinar a criança o sistema alfabético de escrita, a ler e a escrever, que significa levá-la a se apropriar de um sistema de representação dos sons da língua, da fala, em grafemas, sinais e símbolos. É aprender uma tecnologia, fruto de uma invenção cultural que, ao contrário da fala, que a criança adquire naturalmente, tem que ser aprendida porque é um sistema de representação de sons da fala em sinais.

O que é letrar?

O letramento tem relação com a alfabetização, mas é diferente. Não basta a pessoa só aprender a ler e a escrever. Quando ouvimos que uma criança sabe ler e escrever, precisamos saber: ela sabe tirar consequências, escrever um texto que tenha coesão, coerência, que seja adequado ao destinatário? Para aprender isso, não é só com a alfabetização, mas em contato com outros procedimentos e métodos que receberam o nome de letramento, conceito incorporado nos anos 1980 exatamente para destacar a importância não só da criança aprender a ler e a escrever, mas também aprender a fazer uso da leitura e da escrita nas demandas sociais.

O secretário de Alfabetização do MEC, Carlos Nadalim, declarou em um vídeo que o letramento é o grande vilão da alfabetização. Como você avalia essa colocação?

Ele se mostra completamente ignorante na questão da alfabetização e letramento, faz uma grande confusão, não distingue como acabei de fazer o que é uma coisa e outra. Ele diz que o letramento é o vilão como se você só tivesse que ensinar a criança a ler e a escrever e não tivesse que, contemporaneamente, fazer isso vivenciando o seu uso social. Isso foi uma reação aos métodos artificiais criados para alfabetizar as crianças, como as cartilhas do “Eva viu a uva”. O letramento não é vilão, é um parceiro da alfabetização, são componentes indissociáveis da aprendizagem da língua escrita pela criança.

O secretário também afirma que o letramento “é uma reinvenção construtivista da alfabetização” e o atrela a uma “preocupação exagerada com a construção de uma sociedade igualitária, democrática e pluralista em formar leitores críticos”…

Aí ele faz outra confusão de letramento com construtivismo. Não tem a menor lógica. O construtivismo não é um método de ensino, é uma teoria de aprendizagem da área da psicologia cognitiva que se aplica não só à língua, mas a qualquer outro conteúdo. A origem está em Piaget, que desenvolveu uma pesquisa para entender como a criança vai formando conceitos, tomando como base fatos matemáticos e científicos. A Emília Ferreiro resolveu fazer uma pesquisa nessa mesma linha, mas tomando como objeto de estudo a língua escrita. Piaget mostrou que a criança vai construindo progressivamente o seu conceito de objetos e processos culturais, a isso foi dado o nome construtivismo. Isso se aplica a qualquer disciplina, não é um método de alfabetização, é um processo de aprendizagem que a Psicologia estuda.

O construtivismo chegou ao Brasil, sobretudo, pela obra e pela ação da Emília Ferreiro e entendeu-se que ela estava sugerindo um método construtivista de alfabetização, coisa que ela mesma rejeitava com firmeza. Ela não propunha um método, mostrava como a criança ia construindo o conceito do que é a língua escrita.

O que o construtivismo trouxe para nós é que a criança aprende progressivamente conceitos culturais e isso acontece em todas as áreas, até para amarrar o sapato há essa construção. E aprender a ler e a escrever é mais ou menos isso, a professora orienta a criança a como construir. Resumindo, são coisas diferentes, letramento, alfabetização e construtivismo. Nadalim faz uma verdadeira salada disso, que mostra a sua falta de clareza entre teorias, aprendizagem do princípio alfabético e uso social da língua escrita.

O secretário também defende o método fônico como uma metodologia capaz de superar o analfabetismo funcional. Como avalia essa afirmação?

A questão é que, para a criança aprender a língua escrita, ela precisa aprender as relações entre os fonemas e as letras. Se a língua escrita é a representação da língua oral, você tem que aprender como ocorre essa representação, como os sons são representados por letras e grafemas. O processo de alfabetização inclui e tem que incluir forçosamente a aprendizagem pela criança das relações fonemas e grafemas, mas não é só isso. Tem muita coisa que antecede esse momento em que a criança se sente capaz de entender essas relações.

Aí é que entra o processo de construção do conceito de língua escrita pela criança. Ela demora a perceber, por exemplo, que quando escreve, está escrevendo o som, e não representando o objeto. Tanto que é comum que, ao pedir para uma criança de três anos escrever a palavra casa, ela desenhe a casa. Esse salto é fundamental, mas um tanto abstrato para as crianças.

O grande erro do chamado método fônico é que ele parte de um princípio linguisticamente equivocado, porque o fonema não se pronuncia, os consonantais, você não pronuncia um t, d, m sem se apoiar numa vogal ou semivogal. Então essa é questão do método fônico, ele parte com a criança de um momento em que ela não está suficientemente desenvolvida cognitivamente e linguisticamente para conseguir entender as relações entre fonemas e grafemas. É preciso que ela chegue nesse momento, e aí temos uma questão de interação entre desenvolvimento e aprendizagem, até que a criança consiga identificar que, numa sílaba, você tem mais de um som e que cada um deles é representado por uma letra.

A questão não é ser contra o método fônico, mas considerar que ele não dá conta do processo de alfabetização. Trata-se de um procedimento necessário, indispensável, usado no momento em que a criança está pronta cognitivamente e linguisticamente para fazer as relações do fonema com a letra.

Existe um único método para alfabetizar?

No livro “Alfabetização, a questão dos métodos” que eu escrevi o ano passado [a obra ganhou o primeiro lugar na categoria Educação do prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro], eu exponho as facetas do processo de aprendizagem da língua escrita pela criança, linguística, socio-linguística, psicológicas, para que se entenda que alfabetização não é uma questão de método., não se trata de escolher um método.

A questão é alfabetizar o método, que implica em conhecer o processo de desenvolvimento cognitivo-linguístico da criança, orientando-o até que ela compreenda o princípio alfabético.

No livro Linguagem e escola, uma perspectiva social, você relaciona linguagem, escola e sociedade. Do que se trata?

Eu explico que o processo de alfabetização e letramento depende muito do contexto social e cultural da criança. Nesse país terrivelmente desigual, temos que levar em consideração que as crianças das camadas populares, que estão nas escolas públicas. Com elas, o trabalho tem que ser ainda mais amplo e significativo, porque muitas vezes as escolas têm que fazer por elas o que as famílias não têm condições de fazer, por também não terem recebido o que precisavam.

O Nadalim, por exemplo, tem experiência em escola particular, certamente para a classe média, média alta. É diferente você pegar uma criança para alfabetizar que, em geral, já fez pré-escola, tem livros em casa, ou pais que já começaram a ensinar a letra do nome. É muito diferente das crianças das camadas populares, a enorme maioria desse País.

O que ocorre nesse país inteiro é a predominância de escolas públicas, com infraestrutura muito insatisfatória, com professores mal formados, com salários miseráveis, e ele pensando que resolve a alfabetização com o método fônico…É um simplismo, uma ingenuidade, uma ignorância, que me deixa indignada.

Qual o cenário brasileiro frente à agenda do analfabetismo funcional?

O Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf) mostra que há uma parcela da população que, embora alfabetizada, ou seja, saiba ler e escrever, não se letrou, não aprendeu a interpretar o que lê, a inferir sobre o que lê, a fazer avaliação crítica e nem a escrever. [dados do Inaf apontam que, em 2018, 3 em cada 10 brasileiros eram analfabetos funcionais.] Isso deve piorar se insistirmos na ideia de que o letramento é o vilão da alfabetização.

Quais são as políticas fundamentais para reverter o quadro?

A política fundamental e indispensável é a formação de professores. Nós não temos professores formados para alfabetizar. O curso de pedagogia, que forma para a educação infantil e séries iniciais, não ensina praticamente nada sobre como alfabetizar, qual é o processo da criança para aprender a ler e a escrever. Não há nenhum elemento de linguística ou psicolinguísticas nos cursos de pedagogia. São professores que saem sem saber o que fazer em sala de aula, sobretudo com as crianças das camadas populares.

A primeira providência seria mudar o formato dos cursos de Pedagogia ou criar um curso de formação para professores das séries iniciais. Apesar de ser esse o objetivo dos cursos de Pedagogia, não é isso que eles têm feito. É necessário aprender sobre a psicogênese da língua escrita, ou seja, como a criança vai evoluindo no seu conceito de língua escrita e que intervenções podem ou devem ser feitas para que ela avance mais rapidamente e com mais eficiência.

Na alfabetização estão envolvidos processos cognitivos de compreensão de objetos culturais, a linguística, ou seja hoje se ensina um objeto, no caso o sistema alfabético, que os próprios professores desconhecem.

Esta reportagem foi atualizada para integrar o Especial Educação em Disputa: 100 dias de Bolsonaro, uma iniciativa do Carta Educação, em parceria com a Carta Capital, Ação Educativa e De Olhos nos Planos.

Texto: Ana Luiza Basilio

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O #EducaçãoEmDisputa: #100DiasDeBolsonaro é uma parceria De Olho nos Planos, Ação Educativa e Carta Educação.

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